A confirmação de que o governador Ratinho Júnior deixará o comando do Paraná em abril de 2026 marca o início de uma das transições políticas mais complexas e observadas da história recente do estado. A decisão, fundamentada na regra da desincompatibilização eleitoral, é o passo definitivo para que o atual mandatário paranaense possa viabilizar sua pré-candidatura à Presidência da República pelo PSD. Ao oficializar sua saída do Palácio Iguaçu, Ratinho Júnior não apenas encerra um ciclo administrativo iniciado em 2019, mas também dispara o cronômetro para uma reconfiguração profunda de forças no Centro Cívico, onde o vácuo de poder deixado por sua partida já alimenta uma disputa interna intensa entre seus aliados mais próximos.
A sucessão doméstica dentro do PSD transformou-se em um tabuleiro de alta pressão, com três nomes de peso brigando pela “bênção” do governador. De um lado, Alexandre Curi, atual presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), desponta com o apoio de uma vasta base de prefeitos e deputados estaduais, ostentando a força de quem comanda o legislativo com mão firme. Do outro, Guto Silva, secretário das Cidades e nome de confiança na articulação política, busca se consolidar como a face da continuidade técnica e administrativa. Correndo por fora, mas com o capital político de quem transformou a capital, está Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba e atual secretário do Desenvolvimento, que aposta em sua vasta experiência executiva e popularidade urbana para herdar o posto. A dificuldade de Ratinho em arbitrar essa disputa reside no risco de fraturar sua base de apoio justamente no momento em que precisará de um estado unido para sustentar seu projeto nacional.
Paralelamente ao conflito interno no PSD, surge a figura do senador Sergio Moro como uma peça-chave no xadrez eleitoral. A costura de uma aliança entre o ex-juiz da Lava Jato e o governador paranaense é vista por analistas como um “casamento de conveniência” com benefícios mútuos imediatos. Para Moro, apoiar a empreitada presidencial de Ratinho Júnior oferece uma vitrine nacional valiosa e, em troca, o coloca como o favorito para disputar o governo estadual com o respaldo da máquina governista. Essa engenharia política prevê uma chapa majoritária poderosa, que incluiria Guto Silva como vice e reservaria as duas vagas para o Senado para Alexandre Curi e o deputado Filipe Barros, do PL. Tal arranjo buscaria unificar a direita paranaense em torno de um projeto comum, isolando a esquerda e garantindo um palanque sólido para Ratinho em solo sulista.
Entretanto, o otimismo das cúpulas partidárias esbarra na desconfiança latente que permeia os corredores do Palácio Iguaçu. Auxiliares próximos ao governador manifestam ceticismo quanto à fidelidade de Sergio Moro, citando seu histórico de rompimentos traumáticos em Brasília e no Judiciário. O temor entre os palacianos é que o senador possa utilizar o apoio de Ratinho apenas como um degrau e, futuramente, tornar-se um adversário implacável caso os planos nacionais do PSD não se concretizem. Existe um cálculo frio sendo feito: se a candidatura à Presidência não decolar, Ratinho Júnior precisará retornar ao Paraná em 2030, e encontrar Moro sentado na cadeira de governador poderia significar um obstáculo intransponível para sua manutenção como líder regional.
Além das intrigas de bastidor, a decisão de priorizar Brasília impõe ao Paraná o desafio de enfrentar os últimos meses de governo sob a sombra de uma transição que promete ser turbulenta. Críticos e opositores já apontam que a ambição nacional do governador pode deixar em segundo plano projetos estaduais ainda inacabados, transferindo para o vice-governador a responsabilidade de gerir um estado em meio ao calor das campanhas. Para o eleitorado, a imagem de Ratinho Júnior será testada pela sua capacidade de equilibrar a gestão pública com as viagens pelo país para elevar seu índice de conhecimento nacional. O sucesso dessa aposta dependerá da solidez das alianças firmadas agora, em um ambiente onde a lealdade política é frequentemente sacrificada no altar das conveniências eleitorais de curto prazo.



