O Ministério Público do Paraná (MPPR), por intermédio da 2ª Promotoria de Justiça de Campina Grande do Sul, formalizou nesta quinta-feira (15) uma denúncia criminal contra Thayane Smith. A jovem é acusada do crime de omissão de socorro após ter abandonado seu amigo, Roberto Farias, de 19 anos, durante a descida do Pico Paraná, o ponto mais alto do Sul do Brasil. O caso, que ganhou repercussão nacional na primeira semana de 2026, agora entra em uma fase judicial severa, com o órgão ministerial solicitando indenizações que ultrapassam o valor de R$ 13.000, além de serviços comunitários.
O Argumento do Ministério Público e a “Conduta Dolosa”
Diferente da conclusão inicial da Polícia Civil, que havia sugerido o arquivamento do inquérito por entender que não houve infração penal, o Ministério Público sustenta que Thayane agiu com dolo. Segundo o texto da denúncia, a investigada tinha plena consciência de que Roberto estava em uma situação de extrema vulnerabilidade física. Relatos confirmam que o jovem apresentava sinais nítidos de debilidade, tendo inclusive vomitado diversas vezes durante o trajeto.
O promotor responsável pelo caso enfatiza que Thayane optou por deixar o amigo à própria sorte em um terreno de alta periculosidade, marcado por montanhas íngremes, frio intenso e neblina, sob a justificativa de que o ritmo dele era lento demais para o seu “estilo de vida”. A denúncia destaca que, mesmo após chegar à base com segurança e encontrar outros trilheiros, a jovem não teria demonstrado intenção real de auxiliar nas buscas ou reportar imediatamente a gravidade do estado em que Roberto se encontrava.
A Saga pela Sobrevivência: 5 Dias de Isolamento e Resistência
A gravidade da denúncia é acentuada pelo calvário vivido por Roberto Farias. O jovem permaneceu desaparecido por cinco dias em uma área de mata fechada da Serra do Mar. Durante esse período, ele enfrentou condições extremas sem celular e sem equipamentos adequados, já que havia perdido seus óculos e botas ao escorregar em uma fenda e ser arrastado pela correnteza de uma cachoeira. Para sobreviver, Roberto utilizou conhecimentos básicos de escotismo e bombeiro civil, mantendo-se hidratado com água de rios e alimentando-se apenas de uma ameixa amassada que encontrou no fundo de sua mochila.
Roberto relatou que chegou a saltar de uma cachoeira de aproximadamente 20 metros em um momento de desespero, sendo arrastado por quilômetros antes de conseguir se segurar em pedras. O jovem caminhou cerca de 20 quilômetros por terrenos quase intransponíveis até finalmente alcançar uma fazenda na localidade de Cacatu, em Antonina, no dia 5 de janeiro. Ao ser resgatado, ele apresentava desidratação severa e múltiplas escoriações, além de ter emagrecido drasticamente durante o período de jejum forçado.
Indenizações e Prestações de Serviço
Diante dos fatos, o MPPR propôs uma série de penalidades financeiras e educativas para Thayane Smith. A denúncia sugere o pagamento de R$ 4.863 (equivalente a três salários-mínimos) como reparação por danos morais e materiais diretamente a Roberto Farias. Adicionalmente, o Ministério Público exige uma prestação pecuniária de R$ 8.105 destinada ao Corpo de Bombeiros de Campina Grande do Sul, como forma de compensar o Estado pelos custos operacionais da megaoperação de resgate, que envolveu helicópteros, drones e equipes especializadas por quase uma semana.
Além das multas, Thayane poderá ser obrigada a prestar serviços comunitários junto ao Corpo de Bombeiros por um período de três meses, com carga horária de cinco horas semanais. O objetivo dessa medida é promover a conscientização sobre as regras de segurança e o espírito de solidariedade intrínseco ao montanhismo, que foram quebrados durante o incidente. Até o momento, a defesa de Thayane Smith não se manifestou publicamente sobre a denúncia apresentada pelo MPPR, mantendo-se o espaço para o contraditório.



