O embate jurídico em torno do Banco Master ganhou um novo capítulo com a derrubada do sigilo de vídeos de acareação realizada no Supremo Tribunal Federal (STF). O relator do caso, ministro Dias Toffoli, liberou as gravações nas quais o dono da instituição, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, apresentam depoimentos diametralmente opostos sobre a procedência de carteiras de crédito vendidas ao banco público do Distrito Federal.
No centro da disputa está o conhecimento prévio sobre a qualidade dos ativos. Daniel Vorcaro sustentou perante a Polícia Federal que o BRB tinha plena ciência de que parte dos créditos comercializados não era de originação própria do Master, mas sim adquirida de terceiros — especificamente da empresa Tirreno. Segundo o banqueiro, essa transição para um novo formato de comercialização foi informada “desde o início” em conversas institucionais.
Por outro lado, Paulo Henrique Costa negou veementemente a versão do empresário. O ex-presidente do BRB afirmou que sua compreensão era de que todos os ativos eram originários do próprio Master e que a informação sobre a procedência de terceiros só emergiu após o surgimento de problemas na liquidação dos papéis, que se revelaram desvalorizados.
A investigação, conduzida pela delegada Janaína Palazzo no âmbito da Operação Compliance Zero, apura se o BRB realizou operações irregulares para injetar fôlego financeiro no Master enquanto a proposta de aquisição da instituição era analisada pelo Banco Central. O negócio, formalizado em março de 2025, acabou vetado pela autoridade monetária em setembro do mesmo ano devido a inconsistências patrimoniais.
O depoimento de Ailton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização do Banco Central, também trouxe críticas à gestão do banco público. Para Aquino, a governança do BRB falhou ao não identificar a fragilidade dos créditos. Ele enfatizou que, com a aplicação de técnicas bancárias padrões, seria possível verificar a inexistência ou a desvalorização dos ativos adquiridos.
Outro ponto de tensão nos depoimentos envolve o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Vorcaro admitiu ter mantido encontros institucionais com o governador, inclusive com visitas recíprocas às residências de ambos. Ibaneis confirmou os encontros sociais, mas negou qualquer participação em negociações técnicas, atribuindo a responsabilidade das tratativas exclusivamente a Paulo Henrique Costa.
Durante o interrogatório, Daniel Vorcaro recusou-se a fornecer a senha de seu celular à Polícia Federal, sob a justificativa de preservação de sua privacidade pessoal. O banqueiro insiste que as fraudes apontadas não existiram e que a liquidação do banco pelo Banco Central foi uma medida indevida. Enquanto a defesa tenta restabelecer a imagem da instituição, o ministro Dias Toffoli avalia a possibilidade de enviar parte do processo para a primeira instância, o que pode acelerar os desdobramentos criminais do caso.



