O debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 — modelo em que o empregado trabalha seis dias e descansa um — ganhou contornos de crise institucional e econômica nesta semana. Enquanto o governo e parte do Congresso abraçam a pauta sob forte pressão das redes sociais, o setor produtivo, liderado pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), emite um alerta severo: a conta dessa mudança recairá, inevitavelmente, sobre o bolso do consumidor final.
O “Choque” nos Custos e o Repasse nos Preços
Paulo Solmucci, presidente da Abrasel, argumenta que a redução da jornada de 44 para 36 horas semanais, sem redução de salário, não é uma medida gratuita. Pelos cálculos da entidade, a necessidade de contratar mais mão de obra para manter o atendimento geraria um aumento de 20% nos custos trabalhistas.
“Esse aumento de custo implica em um repasse de preços de 7% a 8% para o consumidor final”, afirma Solmucci. “A pergunta é: o cidadão está ciente de que pagará mais caro pelo prato de comida ou pelo serviço de farmácia para que a jornada seja reduzida?”
Os Gargalos da Mão de Obra e a Produtividade
O Brasil encerrou 2025 em uma situação de pleno emprego técnico, com uma taxa de desemprego de 5%. Para Solmucci, o país enfrenta um paradoxo: há centenas de milhares de vagas abertas (500 mil apenas em bares e restaurantes), mas não há trabalhadores disponíveis para suprir a demanda que a nova escala exigiria.
- Risco de “Apagão” em Áreas Pobres: Restaurantes e serviços em regiões nobres teriam capital para “roubar” a mão de obra de bairros periféricos, causando um colapso no atendimento e na qualidade dos serviços nas áreas com menor poder aquisitivo.
- A Pauta da Produtividade: O setor produtivo defende que o enriquecimento e a redução da jornada só são sustentáveis com ganhos de produtividade, tema que, segundo Solmucci, tem sido ignorado no debate político atual.
O Trabalho Intermitente como Alternativa
Uma das apostas dos empresários para modernizar as relações de trabalho sem o impacto inflacionário da “canetada” é o trabalho intermitente. Validado pelo STF em dezembro de 2024, esse modelo permite que o jovem ou o trabalhador escolha seus dias e horários, recebendo proporcionalmente.
| Modelo de Contratação | Flexibilidade | Impacto no Custo Fixo | Direitos Garantidos |
| Escala 6×1 (Atual) | Baixa | Médio | Sim (CLT) |
| Escala 5×2 / 4×3 | Média | Alto (+20%) | Sim (CLT) |
| Intermitente | Alta | Baixo | Sim (Proporcional) |
Política vs. Economia: O Fator Eleitoral
Com as eleições de 2026 no horizonte, Solmucci classifica a postura do governo como “oportunista” e o Congresso como “refém” da popularidade digital da medida. Embora o presidente Lula tenha sinalizado apoio à mudança, ministros como Fernando Haddad e Luiz Marinho haviam pregado cautela e diálogo meses antes.
A expectativa agora recai sobre a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O presidente da Câmara, Hugo Motta, indicou que o tema é prioridade, mas empresários trabalham para estender o prazo de transição ou desonerar a folha de pagamento como contrapartida para evitar uma onda de falências em pequenos negócios.



