A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas gerou repercussão política e diplomática no Brasil. Segundo o cientista político Christopher Garman, diretor para as Américas da consultoria Eurasia Group, a medida representa um desgaste para o governo Lula, que atuava nos bastidores para tentar evitar a classificação.
O analista afirma que o principal impacto político para o presidente não está necessariamente na derrota diplomática diante de Washington, mas na dificuldade de reagir publicamente a uma medida dura contra o crime organizado, tema que costuma ter forte apoio popular.
A decisão americana inclui PCC e CV em uma lista que já reúne grupos como Hamas, Hezbollah e Al-Qaeda. Segundo o analista, a iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla do governo Donald Trump de endurecer o combate ao crime organizado transnacional na América Latina.
O anúncio ocorreu poucos dias após o senador Flávio Bolsonaro visitar Washington e se reunir com Trump. Durante o encontro, o parlamentar afirmou ter pedido oficialmente a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. Apesar disso, Garman avalia que a decisão já vinha sendo discutida internamente pela Casa Branca havia meses.
O especialista também minimizou possíveis impactos econômicos imediatos para o Brasil, mas alertou para uma “nuvem de incerteza de compliance” sobre empresas e instituições financeiras. Isso porque organizações e empresas que, eventualmente, mantenham relações indiretas com estruturas ligadas ao crime organizado podem passar a ser alvo de investigações e sanções dos Estados Unidos.
Segundo Garman, o cenário não deve gerar ações militares americanas contra o Brasil nem transformar o país em prioridade máxima da agenda de segurança dos EUA. Ainda assim, a medida aumenta a pressão internacional sobre o combate ao crime organizado e pode influenciar o debate político brasileiro nos próximos meses.
O analista também afirmou que a aproximação entre Trump e a família Bolsonaro demonstra afinidade ideológica, mas considerou improvável qualquer interferência direta dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026.


